sexta-feira, 24 de julho de 2020

Deus no Céu e Jesus na Terra




Quando se anunciou que Jorge Jesus seria o técnico do Mengão, foi o mesmo que nada; jamais ouvira falar. Porém, mesmo desconhecido, nada parecia pior que o time do Abelão, o que levou descrentes e ateus como eu a aceitar Jesus no coração.

O gajo, com ares soturnos de verdugo pinçado das masmorras de um conto medieval, chegou contestando a docilidade com que o adepto rubro-negro se deixava entorpecer pelos ‘deuses de 81’, entregando-se passivamente aos júbilos da Era Zico, ao passo que os caminhos rumo ao Olimpo se esfacelavam no esquecimento. Com um agravante: o Flamengo se contentava com uma única Liberta e um único Mundial, com a magnética passando pano e cantando que há quarenta anos botara o Liverpool na roda! Quarenta anos, galera!

Se estacionados em andaimes rebaixados desde o baile no time dos Beatles, subestimávamos clubes tal qual o paraguaio Olímpia (campeão mundial e tri da Liberta), é forçoso admitir que os tubarões do pedaço esfregassem as mãos nos confrontos de mata-mata; “Uêba! El Mengón és papa-frita!”, deleitavam-se, bem como as piabas continentais como o América (MEX) ou o Defensor (URU). Éramos do nível de um Argentino Jrs., de uma LDU, um Colo-colo, um Vasco da Gama(!!!) em termos de conquistas extraterritoriais, ó, pá.

Isso até a chegada do portuga, com sua cara de manga chupada e olhar de conquistador ultramarino. “Tá mal, Arão!”, já no primeiro treino. “Esse é dos nossos”, pensou geral. Não era. Os “nossos” ficaram todos pelo caminho, à exceção de um ou dois. Muito pouco. “Lutem para que nestas paredes estejam estampados vossos rostos na próxima época”, bradou o Odair José lusitano, chocando o Ninho do Urubu e questionando a devoção improdutiva ao passado, quebrando o encantamento letárgico que se abatera sobre nós desde os 3x0 no Santos, em 83, e, principalmente, extraindo o jogador do flamengo de sua eterna zona de conforto ao defenestrar o raciocínio terceiro-mundista de que “aqui é Mengão, o time do Zico” resolveria alguma coisa – quando, em verdade, o manto sagrado há muito deixara de se impor aos adversários como uma bastilha inexpugnável, senão o contrário; a mítica 10 do Galinho, símbolo máximo do apogeu rubro-negro, agonizava, vilipendiada por Mugnis, Minhocas, Carlos Eduardos e que tais.

E vieram os empolgantes 6x1 sobre o Goiás: meu irmãããããããão, há quanto tempo que tu não via o Flamengo fazer tanto gol, sem tirar o pé, e com tanta qualidade (alguém falou em 81?)? Quem viu, sabe; foi como nascer de novo! Era aquele o ‘time de índios’ que o Abelão rechaçava? Então me dá meu apito que já tô dando entrada na minha cidadania pindoramense! Após a peleja, os mais atentos haveriam de ter notado que nosso Roberto Carlos ibérico era o melhor cacique que a tribo da Gávea poderia ter. Um sonho inesperado, como um beijo do nada surgido de um fado sofrido, para em seguida nos apaixonarmos por aquele fiapo de homem algo bronco, mas terno, que até I LOVE YOU em libras sabia dizer! Olêêêêê-olê-olê-olêêê, mister, mister!!!

E vieram batalhas épicas, sendo desta feita o conquistador português um aliado, e subitamente não éramos mais nós a temer as invasões bárbaras vexatoriamente freqüentes no solo sagrado do Maracanã, mas muitas das outrora temidas etnias é que agora batiam em retirada, atordoadas, engolindo cuspes e palavras, no desespero de salvarem escalpos, filhos e vergonhas, à medida que um sentimento de confiança extrema ganhava materialidade dentro de cada indivíduo de vermelho e preto - e já não era mais o caso de ‘se’ venceríamos, mas de ‘por quanto’ venceríamos.

Nós, com menos de 60 anos, muito ouvíramos sobre um tal futebol total – será que era disso que falavam? Porque eu nunca tinha visto coisa igual. Nem tamanha simbiose entre jogadores, comissão técnica e torcida – a diretoria, embora eficiente, deixo de fora desse caldo saboroso porque é escrota (Garotos do Ninho?) e neofascista (Bozo?). E assim, taças, troféus, títulos e recordes se amontoaram durante o tempo exato em que nossa fatigada Mãe-Terra deu uma volta completa em torno ao Astro-Rei; mais canecos que derrotas. Assombroso.

Torcer pelo Flamengo, como disse o Juca Kfouri, passou a ser sinônimo de torcer pelo bom futebol. Línguas deletérias, críticas e detratoras silenciaram, sobrando uns poucos recalcados a não reconhecerem que o futebol brasileiro havia mudado, ou, como brilhantemente definiu o renomado e célebre pensador afro-americano contemporâneo Bruno Henrique, havia atingido “ôto patamá”. Rivais passaram a celebrar como um título empates arrancados ao esquadrão flamenguista. Técnicos adversários caíam como uva (essa é uma homenagem ao Queiroz) e cânones eram reduzidos a pó enquanto vacas sagradas se viam condenadas a pastar em público. A cidade, o país e o continente foram conquistados, mas o comandante ambicionava o mundo. Falhou na primeira tentativa, mas o roteiro já estava pronto para 2020: campeão da Copa do Brasil, barreira dos 100 pontos quebrada no Brasileirão, tri da Liberta no Maraca e vitória sobre os Reds no Mundial, again, com novo baile. Aí o Jesus seria contratado pelo, vá lá, Barcelona, o Gallardo o substituiria e todo mundo viveria feliz para sempre.

De repente, como no sonho pornográfico que sempre acaba quando a bola está quicando na frente do gol, o torcedor acordou. E também ele, que nunca havia sido tão feliz na vida; “estava no Paraíso e tive de decidir”. Covid, solidão, família, saudades da terrinha seriam suas justas razões, e quaisquer que tenham sido, haveriam de ser sumariamente aceitas e respeitadas. Seu choro nos braços de Rafinha e Éverton Ribeiro, na despedida, é revelador; ele sabe que jamais encontrará torcida como a do Flamengo, ou atmosfera como a do Maracanã. Aliás, ele logo descobrirá que, por lá, “mister” é protocolo, enquanto no Brasil se tornara marca registrada. Obrigado, Mister.

sábado, 23 de novembro de 2019

Os Libertadores da América


    
Os conquistadores alinhados; há que sobrepujá-los para chegar ao Olimpo.

    Copa Libertadores da América – a "glória eterna" almejada por dez em cada dez equipes sul-americanas. É a maior conquista regional que se pode alcançar. Há outras copas por aí até mais importantes, seja pela qualidade dos participantes, seja pelos cifrões envolvidos na contenda, tais como a Copa do Mundo da FIFA ou a Copa dos Campeões da Europa (atual Champions League), mas nenhuma delas possui o etos libertário que nosso torneio apresenta, como enseja a própria nomenclatura: “Libertadores da América”!

    Talvez, o caráter nebulosamente amador que imperou até meados dos anos 90, recheado de doping, violência em campo e pressão anti-desportiva extra-campo, tenha empregado uma carga extra de heroísmo às conquistas da Liberta, cuja imagem mais emblemática, para mim, é a do uruguaio Hugo de León, capitão gremista em 83, erguendo a taça, com sangue escorrendo pelo rosto, como um boxer.  A cena não deixa dúvidas quanto ao estoicismo e à superação envolvidos na árdua caminhada até a vitória. O vencedor simbolicamente extirpa o mal presente em nosso continente, reconquistando a América, tal como fizeram os homenageados pelo torneio, que um dia se sublevaram da condição de conquistados para derrotar seus opressores. 

    Hoje o Flamengo encarna a figura do cativo rebelde. Cativo porque configurado por uma imensa Nação de torcedores - em sua maioria pretos, pardos e desfavorecidos - ainda hoje exterminados pelos conquistadores em batalhas cotidianas desiguais.  Calhou do oponente, o River Plate (los millonarios), espelhar imagem oposta; elitista e alva, como o uniforme  A equipe carioca é urubu, enquanto a portenha, gallina (blanquita, por supuesto). E se o Boca é a argentina autóctone, travestida em Don Diego, o River é um principado, com Enzo Francescoli representando aquela parcela cisplatina que se julga européia, embora tenha nascido no ‘continente errado’.

    Passados alguns séculos, a América Latina encontra-se sob considerável jugo imperialista, num anacronismo indesejável para os povos daqui. A Região está em ebulição. Os conquistadores contemporâneos, também brancos, loiros e autoritários, novamente tramam contra a existência das populações que ostentem tonalidades de pele diferentes das suas, e novamente apelam a um deus cristão e às armas para fazê-lo. O genocídio é declarado em documentos oficiais que autorizam os agentes do Estado a matarem, indiscriminadamente, como no tempo das caravelas. 

    Não há, pois, como dissociar a batalha campal de Lima, logo mais, da realidade dessas pessoas que, no mesmo instante, estarão pelas ruas da Bolívia, do Chile, do Equador, da Colômbia e, logo, do Brasil, lutando e morrendo pela autonomia de suas respectivas nações. Não se pode esquecer o porquê da taça levar este nome que, em última instância, é o porquê da independência conquistada por vários países sul-americanos.

    Que o Flamengo, hoje, se livre de alguns tentáculos reacionários que por ora o adornam, e assuma sua condição de legítimo representante do povo latino-americano, libertando-o do sofrimento que já dura quase 40 anos! Que o Flamengo encarne Bolívar, Martín, Guevara, Bonifácio, como também Zapata, Sandino e Zumbi (!), e tantos outros! Este Flamengo, imenso e multicultural, que desperta o interesse do próprio ‘conquistador’ ao ser televisionado para vários países do Velho Continente que verão a final da Liberta pela primeira vez em canal aberto; este Flamengo que deve tudo o que tem às arquibancadas e às gerais do antigo Maracanã, aos desdentados; este Flamengo que alenta a tragédia diária promovendo festas nas favelas; é este o Flamengo que queremos ver em campo. Que nossos jogadores tenham a consciência da grandiosidade de sua missão, pois agora seremos nós a conquistar as Américas e, depois, o mundo. Seu povo pede de novo...
   

imagem e edição: joão sassi

domingo, 27 de outubro de 2019

Torcedor do Flamengo: A Felicidade Existe?

Galera reunida após longo e tenebroso inverso; futebol é união.

    Foi como o amor: não se sabe muito bem como se deu ao certo, embora se bem saiba agora que muito certo se deu. As mais belas projeções não seriam capazes de predizer o que sente um adepto rubro-negro no atual estágio da temporada; tão ou mais feliz que um adolescente defronte o espelho se arrumando para ir passar uns dias enfurnado na casa da namorada cujos pais pegaram o último avião para o Nepal – sentiram a intensidade da emoção?

    Se o Mourinho fosse o portuga escolhido, haveria festa e a magnética se daria por satisfeita em ganhar o Brasileirão do Parmêra, na rodada derradeira, por um ponto, e chegar à final da Liberta, ainda que sem favoritismo, tendo ganhado muitas partidas por 1x0, sem encantar. Caso fosse El Cholo Simeone, idem. Com o Guardiola ou o Klopp (meu sonho de consumo), as expectativas cresceriam quanto aos placares e quanto ao ‘jogo bonito’, embora sem a projeção de um time tão aniquilador e encantador (afinal, o Fla não é o Barça ou o Liverpool). Mas quando se anunciou Jorgito Jesus Christ no comando, no que teriam pensado os torcedores do Flamengo? Eu mesmo pensei pitufas, senão um ‘Glória a Deux; melhor que o Abelão ele deve ser!’, pois não tinha a menor idéia de quem era ou do que ele poderia fazer pelo Mengão. Cheguei mesmo a suspeitar que pudesse ser uma barca furada, como foram as naus portuguesas que por estas paragens abarcaram em tempos recentes.

    Mas Jesus veio e, em parcos quatro meses (o que são quatro meses, galera?), transformou a rala e salobra água rubro-negra em denso e inebriante vinho do Porto, doutrinando jogadores, multiplicando gols, recordes e vitórias, convertendo jornalistas e santificando antigos pecadores aos olhos de devotos torcedores. Sabíamos que tínhamos potencial para produzir algo de qualidade, muito embora fosse imperioso admitir que nem mesmo a hiperbólica percepção de um Nelson Rodrigues colocaria o Flamengo nos píncaros do ludopédio continental em que ora se encontra.

    Há quanto tempo você, torcedor de qualquer clube, não tem a escalação de seu time na ponta da língua? Vou além; qual a escalação de seu time quando do último título conquistado? Qual foi a última vez que seu time ‘fez história’ ou ‘marcou época’? Admitamos: a maioria nem sabe o que é isso, pois conta-se nos dedos de uma mão as esquadras que atingiram esse patamar nos últimos 150 anos de futebol jogado em solo tupiniquim. Só Santos e o São Paulo chegaram lá, além de nós.

    Entenda-se ‘chegar lá’ por dominar a cidade, o país, o continente e o mundo, colocando na roda os campeões da Champions, na final do Interclubes (atual Mundial de Clubes), como fizeram Pelé com o Benfica e Telê Santana com o Barça e o Milan. O Flamengo de Zico completa essa tríade; fomos os fodões do Bairro do Peixoto... 38 anos atrás! De lá para cá, sequer uma final continental voltamos a disputar, ao contrário dos dois paulistas, que voltaram e conquistaram novamente a Liberta, mesmo sem esquadrões foras-de-série como os de outrora. Isso nos coloca como um clube mediano no imaginário do torcedor, mundo afora. Quando não, totalmente insignificante – apesar do Zico!

   "Somos um Argentinos Juniors da vida; ninguém bota fé, fora os próprios torcedores, os iludidos assumidos."


    ‘Descobri’ isso num taller de periodismo entre jornalistas latino-americanos, em Cuba, em 2001 - portanto duas décadas após o baile em Tóquio. Ostentando o Manto Sagrado pelo salão, percebi que não causava qualquer sensação. Um equatoriano até sabia quem tinha sido o ‘Grande Zico’, mas não o Flamengo. Foi quando caiu a ficha de que meu Mengão fuderosão tricampeão (o Pet havia marcado o gol de falta naquela semana) não tinha qualquer representatividade ou reconhecimento no continente americano. Ou você, querido flamenguista, reconheceria o Argentinos Juniors como potência futebolística? Por que não? Os caras também foram campeões da Liberta na primeira participação deles (1985) e produziram um gênio da raça (Maradona), enquanto nós fizemos o mesmo em 1981 e revelamos o Zico. Sacaram? Somos um Argentinos Juniors da vida; ninguém bota fé, fora os próprios torcedores, os iludidos assumidos. Tudo bem que ganhamos umas copinhas do Brasil lá e cá, e outros tantos brasileirões aqui e acolá, mas e daí? Quem liga? Pior: chegando a algumas decisões como azarão (1992 e 2009)! São conquistas gostosas, mas pontuais; aliás, foras da curva (e nossa curva tende à mediocridade).

    Jorge Jesus está mudando isso. Hoje o nome do Flamengo corre pelos sete mares do Planeta. Ganhando a Libertadores e, sim, o Mundial, na negra do Liverpool, teremos assegurada nossa volta ao Olimpo, o que não estaria garantido somente pelas conquistas, senão pela forma encantadora como joga nosso time.

    O flamenguista, sem perceber, está finalmente se divorciando do paradigma de 81, ano do futebol-total, como quem deixa finalmente de pensar num antigo romance, seja por obra do tempo, seja pela aparição de um novo amor. Hoje, o flamenguista é aquele sujeito feliz e apaixonado, tal qual o adolescente do início do texto, mas não somente por estar próximo à consagração total, ou por ter sua paixão plenamente correspondida, senão por saber que ela, a paixão, pulsa em mais de quarenta milhões de corações, além de outros milhares, recém-convertidos, que têm se deixado encantar pela apoteose do Mais Querido. Como nos ensinou o jovem libertário estadunidense Cristopher McCandless - inspiração para o célebre livro ‘Na Natureza Selvagem’, de Jon Krakauer -: “a felicidade só existe quando é compartilhada”.

    Oh, meu Mengão, eu gosto de você; quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

#TodosEuNãoSeiMasEuSouRodrigoCaio

Ói a cara de preocupação do Rodrigo...


Se um dia sonhei em jogar futebol, foi por causa do Zico, único ídolo que tive. Em campo, fora de série; na vida, íntegro e exemplar, um cara no qual as crianças poderiam (e deveriam) se espelhar. O sonho não se concretizou por opção (opção dos treinadores, frise-se), o que não diminuiu meu tesão pela bola, comprovado nas peladas e campeonatos amadores dos quais participei ao longo de 41 anos – contando as bicudas na barriga de mainha. Tornei-me um discípulo do Galinho, se não no talento, na índole, respeitando os colegas de time, e também os colegas do outro time.

Ainda molecote, juvenil do Brasília, puxava conversa com meus marcadores e fazia as mesmas piadas que fazia, fora de campo, com meus amigos. Não raro, ficava falando sozinho, mesmo que a bola não estivesse em jogo. Eles estranhavam, mas para mim, eram apenas adversários, e não marcianos ou inimigos; tão somente caras iguais a mim, ainda que com camisas e objetivos diametralmente opostos.

Já mais velho, jogando o campeonato brasileiro universitário pela Universidade de Brasília, fomos desclassificados numa partida disputadíssima. Ao silvo do derradeiro apito, senti um estranho bem-estar, resultado de um embate aguerrido e tenso, mas jogado na bola. Jogamos bem, mas eles jogaram melhor e nos ganharam. Cruzei então o extensíssimo gramado do Centro Olímpico da UnB (onde devem caber uns dois Maracanãs, no mínimo) e fiz questão de cumprimentar os vencedores. Apesar de nobre, o gesto não causou qualquer comoção ao elenco adversário – alguns chegaram mesmo a pensar que eu havia ido tirar satisfações. Junto aos meus, no entanto, o desconforto e a estranheza se fizeram presentes: - A gente se fode e você ainda vai dar moral pros caras!... – esbravejou alguém, de cabeça-quente. Eu namorava uma estudante de Educação Física, que também ralhou comigo quando voltávamos pra casa: - Você percebeu que só você foi cumprimentá-los?... – perguntou, deixando clara a sua opinião.

                Cá com minhas abotoaduras, penso que moral não seja algo inerente às vitórias, pura e simplesmente, mas também ao fato de se jogar bem e com respeito ao oponente, bem como quando aceitamos os desdobramentos da vida, buscando o melhor que cada situação tem a nos oferecer, mesmo na derrota.

Foi o que ocorreu com são-paulino Rodrigo Caio, ao buscar reparar um erro do juiz que causaria dano ao rival corintiano, Jô. O zagueiro tricolor não deixa de ter princípios e valores só porque quer comprar uma casa para a mãe – sonho de dez entre dez boleiros; não vira outra pessoa só porque entrou em campo. Ele sabe que não conseguiria dormir direito se fosse, involuntariamente, o artífice de uma injustiça contra o adversário. Rodrigo sabe que jogo se ganha na bola... Ou ao menos que assim deveria ser.


Ao impedir que Jô fosse suspenso, ele demonstrou o quão grandioso é seu caráter, e que o mundo-cão que ora o cerca não é suficientemente poderoso para abalar suas convicções e sua dignidade. Enquanto seu parceiro de zaga, Maicon, dispara que o melhor é ver a mãe alheia chorar, Rodrigo faz sua mãe orgulhosa, e pelas melhores razões que o esporte pode oferecer. Ganha o futebol brasileiro; perdem os brucutus e as aves de rapina de nossa enferma sociedade. 

imagem: cartacapital.com.br

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Maracanã - do Pó Viemos, ao Pó Voltaremos

Comunhão entre Céu, Terra e Povo - algo que não se constrói com dinheiro 

    Se acaso perguntado, o nostálgico leitor, por estrangeiros e etês, sobre a existência de um templo sagrado em solo brasileiro, o que lhos responderia?

    Penso que católicos olhariam para a cidade de Aparecida e sua nada franciscana Basílica de Nossa Senhora, no que muitos dos evangélicos apontariam para o universalmente cafona Templo de $alomão, enquanto que meus parcos leitores (todos ateus ou macumbeiros, espero) não pestanejariam em cravar o Maraca, vulgo Mário Filho – um templo que já não existe mais. Quanto aos incautos, inocentes e bobos ilustrados, citariam orgulhosamente o New Maracana Arena Odebrecht Cabral, etc. e tal.

    São seres que nasceram numa caverna chamada século XXI, ou nela se enfiaram, por mediocridade, e que carecem de referência sobre o ethos constitutivo do futebol brasileiro e de suas características culturais mais simbólicas. Babam pela influência gringa – em especial pela norte-americana, símbolo de ‘eficiência e espetáculo’ – e reverenciam o Super Bowl, como se toda lógica humana se resumisse cifrões, pirotecnia e ritmo pop. Por total falta de parâmetros, jamais saberão o quão extasiante era sair do túnel do antigo Maracanã para efetivamente sentir-se no interior de um templo sagrado, em dia de Fla-Flu. Não havia qualquer necessidade de selfies para dizer ao mundo, “olhem, estou aqui, estou aqui”, pelo simples ato de estar e ostentar, mas comunhão e rivalidade saudável entre os presentes, em total sinergia com o evento, e não com o telão.

   Aqueles que destruíram esse templo – mentes colonizadas, macaquinhos da modernidade – falam em negócios, lucros e outras merdas que o capitalismo impõe como metas sociais, em detrimento da tradição, do respeito e da empatia. O que importa é o que dá para tirar desse business; mesmo que em forma de propina; mesmo que ignorando pareceres enfáticos de autoridades patrimoniais; mesmo desonrando e enxovalhando o nome da própria família; mesmo colocando o Brasil de quatro para a FIFA enrabar – vale tudo.

    Foi, pois, nesse clima de suruba de valores imorais e materiais, além de muita sodomia forçada, que nasceu o New Maracana. Os arquitetos dessa bizarra maiêutica gozaram à larga e cruzaram oceanos para limpar a porra toda com serviette de table française, enquanto botavam pra éfe em cima do povo. Não há, aliás, regra mais universal e atemporal: o povo sempre se fode. Sem ele, o estádio perdeu sua alma, e com sua arquitetura interna em desacordo com história do templo destruído, perdeu a aura; virou arena. Perdeu a mítica. Passou a calar vozes, a censurar ideologias, a reprimir a alegria, as bandeiras e as percussões, rojões, emoções. Proibiu o carnaval que identificava nossas arquibancadas, e também o gramado, impedindo e penalizando o jogador que “ouse” comemorar um gol junto ao seu torcedor: - Se você for (pra galera), vai tomar amarelo! – alertou Réver a Guerrero, após El Depredador fazer vendaval na defesa para estufar as redes do Furacão, no embate da última quarta-feira.

    Do sofá, sou reportado sobre o jogo. De quando em nunca, a transmissão (que prima por efeitos especiais em detrimento do espetáculo real) permite ao telespectador uns poucos segundos de vislumbre da atmosfera da torcida rubro-negra. Encalacrados como bovinos em suas baias, pouco podem fazer, a não ser coreografia com as mãozinhas ou simpáticos mosaicos, sem o improviso e a espontaneidade que marcaram toda a trajetória do antigo colosso brasileiro. Na tela, a magnética aparece como um borrão digital, cheia de movimentos repetitivos e sem qualquer livre-arbítrio.


    Nosso templo se transformou numa igreja chata e ultrapassada, cujos valores, crenças e dogmas caminham em direção, sentido e sentimentos diametralmente opostos àquilo que querem seus fiéis seguidores. Do pó viemos, ao pó voltaremos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Perdoe, Dr. Roberto... (mas nosso Flamengo não será campeão)

Esse rubro-negrinho prefere bater uma bola a acompanhar os jogos do Flamengo pela TV

    Não me lembro de haver assistido a qualquer coisa tão maçante em muitas décadas de futebol. Os 40’ que desperdicei defronte a TV foram tão desagradáveis quanto o slogan que alardeia o “cheirinho de hepta”. Difícil crer que as pessoas paguem o PREMIÈRE para ver isso.

    Para início de análise, além de um corte de cabelo padronizado e de propalada fé do Senhor Jesus Cristinho, o que o time do Flamengo tem para mostrar? Pose de estátua? Ou total falta de capacidade para ser campeão? O Flamengo não merecer vencer.

    Quando liguei a televisão, o oriundi Leo Batista já estava apresentando os melhores momentos do 1º tempo que, ressalte-se, pareceram-me muito melhores ao último colocado do Brasileirão do que à equipe que almeja a consagração. Porque se o objetivo do time era entrar em campo com a faca entre os dentes e passar o rodo geral, então eu não entendi nada quando nosso técnico gritava, insistentemente, “paciência!” aos jogadores que deixavam o vestiário, rumo ao 2º tempo. Paciência?! Só se for ao torcedor, né, Zé? Pois quem perdeu dois ou três gols feitos foi o América, enquanto o nosso foi na cagada, né? Assim como foi cagada o atacante americano dar uma ombrada, já na segunda etapa, tornando possível ao nosso engomado goal-keeper praticar uma defesa decerto impossível, caso cabeçada fosse.

    Falando em segunda etapa, avanti, se é para isso que aqui estamos! Que coisa medonha... A começar pelos uniformes. O do Coelho, cuja mistura de cores agrada no original, agora foi transformado em penteadeira de puta, sendo que na penteadeira você dá uma arrumada, mas a camisa, só queimando e se esquecendo da fórmula para nunca mais repetir. Quanto ao do Mengo, é verdadeiramente astucioso como conseguiram embagulhar o clássico manto do Mundial de 81! Pô, Adidas! Pô, diretoria! Tanto o design modernoso-academia não combina com o traço rubro-negro, como um logotipo azul e laranja jamais combinará com qualquer camisa do Fla, em qualquer época – quiçá com a “Tabajara”. O patrocinador fica tão em evidência com suas letras garrafais e pesadas que toda vez que o time entra em campo eu me confundo, achando que é o time da CAIXA...

    Voltando ao suplício, e me desculpem o tom modorrento, mas que desagradável... Enquanto os mineiros atacavam com alguma dignidade e honra, dado o rebaixamento, os cariocas mandavam ver um pão de queijo e contemplavam as vaquinhas pastando nas montanhas verdejantes, como num copo de requeijão. Enquanto o inconfiável PC se esfalfava para evitar mais uma carga do esquadrão deca campeão, cá atrás, a comissão técnica a tudo assistia, tomando mais uma xícara de café passado na hora.

    Entre um naco de queijo de minas e outro, entrou o Gaborel, cabra que eu gosto muito (apesar das evidentes limitações), e que deu um balaço que parece que vai ser gol mesmo depois de ver no replay que não foi; merecia. Digo mais: se a bola entrasse, com a beleza e a personalidade com que desferiu o potente chute de canhota, quem sabe o baiano caísse nas nossas graças e finalmente desabrochasse. Foi o único fato digno de registro.

    Como se não bastasse (o Golpe, a PEC55, o reacionarismo galopante, etc), o enfadonho enredo da noite da última quarta-feira (16) ainda contava com a narração quadradinha do bom funcionário Luiz Roberto, quem não deixava o sonolento telespectador se esquecer de “toda a emoção em jogo na encarniçada disputa pelo G-3”... Uáááááááááá, que sono! Cá do sofá, para piorar, não se podia nem mesmo deixar-se contagiar pela empolgação da torcida presente ao estádio que, segundo o Luiz, “cantava e pulava sem parar, fazendo uma festa no Mineirão!”... Sério? Difícil acreditar naquilo que não se pode ver, já que a transmissão global, ao privilegiar os patrocinadores, a qualquer custo e em detrimento das manifestações populares de cunho cultural, político ou clubístico, não se ocupa mais de promover pormenores tais, como nos tempos de outrora, com seus 100 mil torcedores, chuva de papel higiênico e picado, charangas, batuques e bandeiras mil. A despeito da quantidade de câmeras altamente tecnológicas espalhadas por todo o ambiente, os telespectadores só ficam sabendo da tal “festa no Mineirão” por conta dos insistentes alertas do narrador: - Canta feliz a torcida flamenguista nas arquibancadas!... – emendava.

    Se ele, sempre educadíssimo,  não nos faz o favor de avisar, jamais saberíamos que alguém cantarolava por aquelas constantemente vazias cadeiras da Arena Mineirão, já que desde que a Globo ‘pegou pânico’ (SIC) de tudo o que é espontâneo, suas transmissões esportivas passaram a ser ambientadas numa câmara mortuária. De nada lhe servem microfones ultrassensíveis ou engenhocas de ponta, pois a emissora ranzinza e quatrocentona opta, há tempos, por suprimir da vida dos telespectadores qualquer energia contagiante ou expressões genuínas de alegria vindas daquela turba popularesca que subsiste em nossas (mau) padronizadas arenas - justamente as manifestações que historicamente (e até há pouco) resignificaram o jogo e a forma de se torcer, criando passarelas imaginárias, avenidas e carnavais em meio às gerais. Foi tudo substituído por um som abafado, almofadado. Da torcida, um leve alarido. E o Luiz Roberto que, contido, esfregando suas mãozinhas, deixa escapar um insincero sorriso folgazão e sintetiza a experiência pretensamente coletiva: - Tudo isso é um grande barato!...

    Do que será que ele está falando? Do preço dos ingressos (aproveitando o trocadilho) é que não é. Da qualidade do jogo, muito menos. Será da tal disputa pelo G-3 (ou G-4, G-7 ou G-16 – quem não cair, tá na Liberta!)? Ou das es-pe-ta-cu-la-res intromissões publicitárias que agora fazem a tela diminuir, obrigando-nos, como gados, a ver o que eles querem que vejamos? (Parabéns ao gênio que pensou nisso.) Não sei; são tantas coisas “bacanas e legais” (só para citar o Luiz) que a gente se perde nesse verdadeiro parque de diversões das emoções, né, Maestro Júnior?... – Hã?!...

    Por fim, voltando à vaca fria, i.e., ao time do Flamengo que só nos presenteia com leite azedo, é necessário finalizar dizendo que, tal como agora, já iniciamos muito mal para finalizarmos muito bem alguns brasileirões (em especial, os de 87, 92 e 09). Destoando dessa tríade vitoriosa e descontando o fato de não termos um Zico, um Júnior ou um Pet, o mal é que nessa escalada rumo ao caneco não tenha rolado uma arrancada final espetaculêndida, daquelas de fazer com que geral sinta calafrios ao topar com o Mengão-deixou-chegar-fudeu. Borrariam as calças só de sentir o cheiro da turma da Gávea, mas com um futebol fedorento desses...

    O texto era só para esculachar o futebol do Mengão, mas acabou sobrando para a Globo e para o vistoso Luiz. Foi mal, aê, Dr. Roberto, mas nesse ano nosso Flamengo não merece (nem vai) ser campeão. Fedeu!

PS: claro que se logo mais, no New Maraca, ganhar dos coxa, e os porco e os peixe perderem, torcerei como louco e acreditarei como nunca! Ó, meu Mengão, eu gosto de você...

imagem: joão sassi


terça-feira, 3 de março de 2015

Borogodó Passando a Régua

O Vasco não brilhou, ao contrário do ilustre torcedor.

Esta nova seção (até agora, a única do blog) se propõe a pontuar o que de mais interessante aconteceu na última semana.

À exceção dos jogos do Flamengo, já não faço a menor questão de assistir a qualquer partida de futebol. O passionalismo juvenil de quem faltava à aula ou mesmo ao trabalho para ver um reles amistoso da Seleção Brasileira, no Tadjiquistão, já não existe mais – bem como o futebol ou a própria seleção, dizem.

Vez ou outra, porém, esbarro num canal qualquer e dou uma espiada no que anda fazendo um Barça ou um PSG da vida, esses times de grife do businessfootball. No último Sábado, por exemplo, bastaram alguns minutos assistindo ao toque de bola culé, contra o time do Granada, para me lembrar de como o Brasileirão, além de sonolento, possui um nível técnico digno da várzea do futebol mundial.

Neymar, que não vem atuando bem há uma meia-dúzia de jogos, não me parece tão à vontade. Foi (in)devidamente enquadrado para ser, no máximo, uma estrela de segunda grandeza do atual plantel azul-grená. Ele deveria parar de baixar a cabeça para Messi e partir para cima, do contrário, poderá reeditar a (até certo ponto) frustrante trajetória de Robinho.

Por lençóis piores que os do Moicano da Vila, e ocupando um papel ainda menos relevante em sua equipa, passa o ex-são-paulino Lucas. Quando se transferiu do Morumbi para o Parc des Princes, a Globo chegou a despachar seu setorista, Abel Neto, para cobrir os primeiros passos do então futuro melhor do mundo pela Cidade-Luz, além de produzir matérias especiais para o Esporte Espetacular e o Jornal Nacional – tava cheio de moral, o moleque! Duas temporadas depois, claudicante e diminuído pelo ego colossal de Ibrahimovic, é titular de ocasião, não fez falta na Copa do Mundo e nunca mais apareceu no comercial da Wolkswagen. Neymar que abra os olhos.

Na seara nacional, gostei de saber que a Fiel tem feito do Itaquerão um pesadelo para os times visitantes, sendo parcialmente responsável pelo excepcional desempenho alcançado pelo Timão, em seus redutos. Para isso, muito contribui a acústica extasiante do estádio, o que causa torpor ao adversário. A Nação Rubro-Negra, se quiser fazer frente aos manos e do Mengão, indestrutível em seu rincão, agora vai ter de se virar para ecoar seu famoso canto gregoriano sob as lonas cafonas que tanto descaracterizaram o Maracanã.

Já no clássico dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, entre Flamengo e Botafogo, nem a despedida do limitado, mas esforçado Leo Moura, ou a propaganda bizarra da camisa do Fogão chamaram tanta atenção quanto a tentativa de celeuma criada pela imprensa tupiniquim, que viu na divertida declaração pré-jogo – “Vou marcar gol e Marcelo Cirino, não!” - feita pelo esforçado, mas limitado botafoguense Bill, algo a ser alardeado como provocação e desrespeito, estimulando o tal “o pau vai comer em campo”. Que imprensa puritana. Parece que nunca ouviram falar de um Romário, de um Renato Gaúcho... Ô, gente inocente!

Por fim, aquele que considerei o ponto mais louvável do fim de semana, digno de aplausos coletivos: a presença de colorados e tricolores nas arquibancadas do Gigante da Beira-Rio. Das ocasiões a que pude assistir a um clássico, as mais emocionantes foram em companhia de torcedores adversários. Quanto menos segregação há, mais espaço para a paixão do torcedor aflorar. Saravah!


foto de joão sassi